terça-feira, 9 de outubro de 2012

Capítulo XXI - A Raposa

" - Por favor... cativa-me! disse a raposa.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer. 
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? perguntou o principezinho. 
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto... 

No dia seguinte, o principezinho voltou. 
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade!
Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos. "

(O Pequeno Príncipe: Antoine de Saint-Exupéry - pg. 70-71)

sábado, 6 de outubro de 2012

A Curiosidade

" - A Curiosidade é o que diferencia o homem superior do medíocre - dizia Odin a Loki, tentando instruí-lo.
Na verdade, há apenas duas classes de homens: os despertos e os adormecidos; os primeiros são aqueles que já acordaram do sono bruto da indiferença, no qual os outros ainda estão miseravelmente imersos. Um sono imbecilizante, que os faz crer que a vida se resume à meia dúzia de funções orgânicas, exceto a mais nobre: a de usar seus próprios cérebros para criar algo de belo, que os torne felizes como um deus. E isto - arrematou Odin - somente alguém dotado de curiosidade pode fazer, ou seja, alguém desperto. "

(In: As Melhores Histórias da Mitologia Nórdica - A.S. Franchini e Carmen Seganfredo)

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Music of the Night

Mais uma recomendação de música. Faz parte do filme de Andrew Lloyd Webber, O Fantásma da Ópera adaptação do livro de Gaston Leroux com o mesmo nome.  Este trecho específico é cantada pelo Fantásma, para a protagonista Christine Daae. Uma cena muito bonita ao meu ver... 
A tradução da letra original foi feita por mim. 

A noite aguça, acentua todas as sensações...
A escuridão agita, despertando a imaginação
Silenciosamente os sentidos abandonam suas defesas.

Vagarosamente, gentilmente, a noite estende seu esplendor. 
Agarre-a, sinta-a, trêmula e suave.
Desvie sua face, da luz ostensiva do dia
Esconda seus pensamentos, da luz fria e insensível...
E ouça a música da noite.

Feche seus olhos, entregue-se aos seus sonhos mais obscuros...
Expurgue os pensamentos da vida que conhecia...
Feche seus olhos, deixe sua alma elevar
E viverá como nunca viveu antes!

Suavemente, primorosamente, a música irá acariciá-la...
Ouça-a, sinta-a, secretamente possuindo-a...
Abra sua mente! Liberte suas fantasias... 
Nesta escuridão que não tem como escapar.
A escuridão da música da noite... 

Deixe sua mente iniciar uma viagem através de um mundo novo e estranho,
Esqueça a vida que conhecia até agora...
Deixe sua alma levar-te para onde desejar estar!
Só assim, poderá pertencer a mim.

Flutuando, caindo, doce intoxicação...
Toque-me, confie em mim, saboreie cada sensação
Deixe o sonho iniciar, deixe seu lado sombrio entregar-se...
Para o poder da música que componho.
Pelo poder da música da noite.

Somente você... 
Pode fazer minha canção alcançar vôo
Ajude-me a compor a música da noite.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Loucos & Santos

Escolho o meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e que aguentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela rosto exposto.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e a outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que 'normalidade' é uma ilusão imbecil e estéril.
(Oscar Wilde)

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Brumas & Chuvas

Ó inverno, ó fim de outono, ó primavera em lama,
Dormidas estações! A minha alma vos ama
Por cobrirdes-me assim cérebro e coração
De sudário brumal, de tumba e de ilusão

Nesta grande planura em que o Astro se derrama,
Noite em que o cata-vento é uma voz rouca e brama,
A minha alma, melhor que na morna estação,
Suas asas de corvo abrirá na amplidão. 

Por certo ao coração, todo coisas esquálidas,
Sobre quem desce há muito o frio das nevadas,
Rainhas da atmosfera, ó estações descoradas,

Nada é mais doce que vossas trevas tão pálidas,
Se a dois e dois por noite, após um triste ocaso, 
Dormimos nossa dor por um leito de acaso. 

(Charles Baudalaire)

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Soneto 96

De almas sinceras a união sincera. 
Nada há que impeça. Amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor. 

Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora,
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,

Antes se firma, para a eternidade.
Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou. 

(William Shakespeare)

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Mutability

" Descansamos; um sonho tem o poder de envenenar o sono.
 Levantamo-nos; um pensamento vagabundo polui o dia
Sentimos, concebemos ou raciocinamos; rimos ou choramos,
Abraçamos a amorosa dor ou repelimos nossas preocupações,
É o mesmo: pois, seja alegria ou tristeza,
O caminho de saída continua livre.
O ontem do homem talvez nunca seja como o amanhã.
Nada persiste, salvo a mutabilidade. "

(Percy Shelley)

domingo, 16 de setembro de 2012

Citação Lestat

Fujam de mim, ó mortais que são puros de coração. Fujam dos meus pensamentos, ó criaturas cheias de grandes sonhos. Afastam-se de mim, todos os hinos de glória. Sou o imã dos condenados. Pelo menos por um tempo. E então meu coração grita, meu coração não quer se calar, meu coração não desiste, meu coração não quer ceder...
... o sangue que ensina a vida não ensina mentiras e o amor volta a ser minha repreensão, meu tormento, minha canção. "

( Lestat de Lioncourt. Cântico de Sangue. P 285 )

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

À Você

Beijar o nácar, que te ascende os lábios,
Seria para mim prazer divino;

mas eu desprezo os risos da fortuna,

que podem profanar o meu destino.


Feliz de mim se repousasse um pouco,

sobre o teu níveo seio que palpita:

mas fere a maldição os meus desejos,

a paz voara e te deixara aflita.


Em silêncio nasceu, cresce em silêncio,

este amor infinito, único, eterno.

Irei agora, abrindo-te minha alma,

Exilar-te do céu, abrir-te o inferno?


Não, oh meu anjo, além escuto o eco

da maldição da nossa sociedade;

ouvi-lo, sem corar, não poderias,

expire pois a nossa felicidade.


Que importa o fogo que em meu peito lavra,

que importa a febre que me roí a vida,

se a tua correrá serena e pura,

de prazeres somente entretecida?


Roubar teu coração à paz dos anjos,

e nele despargir os meus amores,

oh! Fora um crime, um sacrilégio horrível;

para puni-lo não houveram dores.


E, pois, para livrar-te ao precipício,

Adeus, meu anjo, fugitivo corro:

rocem embora os teus, os lábios de outrem,

será breve o penar, porque já morro.


Sim, agonizarei talvez bem pouco,

Porque meus dias estão pedindo graça,

oh! Para possuir-te, afrontaria

infâmias, porém não tua desgraça.


Ao menos ficarás de um crime isenta,

O porvir para ti será de flores;

Que importa que minha alma se torture,

Se tu não sofrerás por meus amores?


(Lord Byron)